domingo, 18 de julho de 2010

Carlos do Carmo - Estrela da Tarde





Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

terça-feira, 6 de julho de 2010

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Objectivos...

Sei agora mais que nunca que o grande objectivo da minha vida, a grande finalidade da minha existencia sempre se prendeu com a realização do espirito, o apaziguamento das paixões da alma , tarefas a realizar mediante a travessia de duas vias principais que convergirão num dado ponto, lá longe, no futuro remoto, numa só via de sentido único. A via da consumação dos afectos do coração e a via da beleza pura dos sentidos. A importancia do sucesso material afigura-se-me como um entretenimento meramente residual, para não dizer de nula importancia quando comparado com o grande objectivo do ponto convergente. Este grande objectivo pode parecer demasiado abstracto ,demasiado vago, sendo porém, o único que dentro de mim se projecta a traços ténues e hesitantes e a ecos distantes rasurados por lentos murmurios. Ainda que possa ser triste, a vida é bela quando a olhamos com os olhos desnudados do inicio, com o espanto de quem não passa pelo passado e so sente a sucessão ininterrupta de presentes. O regresso à inocencia original, à ausencia de todo o entulho.